Como neurologista há mais de 15 anos, tenho acompanhado de perto a evolução do conhecimento sobre o Alzheimer. Confesso que cada paciente que recebe esse diagnóstico me toca de forma única. É uma doença que vai além dos prontuários médicos – ela atinge famílias inteiras e transforma vidas.
Neste artigo, compartilho o que a ciência atual nos diz sobre essa condição e como tenho orientado meus pacientes e suas famílias a lidar com os desafios impostos pelo Alzheimer.
O Que É a Doença de Alzheimer?
A doença de Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo que destrói lentamente a memória, o pensamento e, eventualmente, a capacidade de realizar tarefas simples. É a causa mais comum de demência entre pessoas idosas, representando cerca de 60% a 70% dos casos.
Quando observo o cérebro de pacientes com Alzheimer, identifico duas estruturas anormais principais:
- Placas amiloides: depósitos de proteína beta-amiloide que se acumulam nos espaços entre os neurônios
- Emaranhados neurofibrilares: fibras retorcidas da proteína tau que se acumulam dentro das células nervosas
Estas estruturas interrompem a comunicação entre as células nervosas e, eventualmente, causam sua morte, levando à perda progressiva de tecido cerebral.
Fatores de Risco Para o Desenvolvimento do Alzheimer
Durante minha prática clínica, tenho observado diversos fatores que podem aumentar o risco de desenvolver Alzheimer:
| Fator de Risco | Nível de Evidência | Comentários |
|---|---|---|
| Idade avançada | Alto | O risco dobra a cada 5 anos após os 65 anos |
| Histórico familiar | Alto | Risco aumentado se parentes de primeiro grau foram afetados |
| Genética (gene APOE-e4) | Alto | Presença aumenta significativamente o risco |
| Traumatismo craniano | Moderado | Especialmente lesões repetitivas ou graves |
| Doenças cardiovasculares | Moderado | Hipertensão, colesterol elevado, diabetes |
| Baixa escolaridade | Moderado | Menor reserva cognitiva |
| Isolamento social | Moderado | Menor estimulação cognitiva |
| Depressão | Moderado | Pode ser tanto fator de risco quanto sintoma inicial |
Sintomas da Doença de Alzheimer
Nos consultórios que atendo, tenho percebido que a doença de Alzheimer geralmente se desenvolve lentamente e piora com o tempo. Costuma-se dividir a progressão em três estágios principais:
Estágio Inicial (Leve)
Nesta fase, muitas vezes os pacientes ainda mantêm independência. Os sintomas podem incluir:
- Dificuldade para lembrar conversas recentes
- Esquecimento de nomes ou locais de objetos
- Perguntas repetitivas
- Dificuldade para tomar decisões
- Mudanças sutis de personalidade
- Perda de iniciativa e espontaneidade
Estágio Intermediário (Moderado)
Durante esta fase, que geralmente é a mais longa, observo que os pacientes necessitam de maior supervisão e cuidados. Os sintomas incluem:
- Desorientação temporal e espacial
- Dificuldade para reconhecer familiares e amigos
- Mudanças de comportamento (agressividade, irritabilidade)
- Alucinações e delírios
- Dificuldades com linguagem
- Problemas para realizar atividades da vida diária
- Episódios de incontinência
Estágio Avançado (Grave)
Na fase final da doença, é comum que meus pacientes necessitem de cuidados integrais. Os sintomas incluem:
- Incapacidade de comunicação verbal efetiva
- Dependência total para atividades básicas
- Perda significativa de peso
- Vulnerabilidade a infecções
- Convulsões (em alguns casos)
- Perda do controle de esfíncteres
- Dificuldade para engolir
Como É Feito o Diagnóstico?
Como neurologista, posso afirmar que não existe um único teste para diagnosticar a doença de Alzheimer. Realizo um processo de eliminação baseado em:
- Histórico médico detalhado
- Entrevista com o paciente e familiares
- Avaliação de mudanças cognitivas e comportamentais
- Exames físicos e neurológicos
- Avaliação dos reflexos
- Coordenação e equilíbrio
- Função sensorial e motora
- Testes cognitivos
- Mini Exame do Estado Mental (MEEM)
- Montreal Cognitive Assessment (MoCA)
- Outros testes neuropsicológicos específicos
- Exames de imagem
- Ressonância magnética (RM)
- Tomografia computadorizada (TC)
- PET scan com marcadores para amiloide/tau
- Exames laboratoriais
- Hemograma completo
- Função tireoidiana
- Níveis de vitamina B12
- Biomarcadores no líquido cefalorraquidiano
Tratamentos Disponíveis
Sempre digo aos meus pacientes que, embora ainda não exista cura para o Alzheimer, temos opções para gerenciar os sintomas e melhorar a qualidade de vida:

Medicamentos Aprovados
- Inibidores da colinesterase
- Donepezil (Aricept)
- Rivastigmina (Exelon)
- Galantamina (Reminyl)
- Antagonistas dos receptores NMDA
- Memantina (Ebix)
- Terapia combinada
- Donepezil + Memantina
- Medicamentos para sintomas comportamentais
- Antidepressivos
- Ansiolíticos
- Antipsicóticos (uso cauteloso)
Terapias Não Farmacológicas
Em minha experiência, as abordagens não medicamentosas são fundamentais:
- Estimulação cognitiva
- Terapia ocupacional
- Atividade física regular
- Musicoterapia
- Arteterapia
- Adaptações no ambiente doméstico
- Suporte emocional e psicológico
Avanços Recentes na Pesquisa
Tenho acompanhado com entusiasmo os avanços científicos nesta área, que incluem:
- Novos medicamentos anti-amiloide
- Aducanumab (Aduhelm) – aprovado em 2021
- Lecanemab (Leqembi) – aprovado em 2023
- Donanemab – em fase final de testes
- Terapias dirigidas à proteína tau
- Vários compostos em ensaios clínicos
- Abordagens anti-inflamatórias
- Investigação do papel da inflamação no Alzheimer
- Terapias baseadas em estilo de vida
- Dieta mediterrânea
- Programas de exercícios estruturados
- Treinamento cognitivo intensivo
Como Reduzir o Risco de Desenvolver Alzheimer
Baseado em evidências científicas, recomendo aos meus pacientes:
Estilo de Vida Saudável
- Exercícios regulares: pelo menos 150 minutos por semana
- Dieta balanceada: preferencialmente mediterrânea ou DASH
- Controle do peso corporal: manter IMC saudável
- Qualidade do sono: 7-8 horas por noite
Saúde Cardiovascular
- Controle da pressão arterial
- Gerenciamento do colesterol
- Controle da glicemia
- Evitar tabagismo
- Moderação no consumo de álcool
Estimulação Mental
- Aprendizado contínuo
- Leitura regular
- Jogos de raciocínio e estratégia
- Novas habilidades e hobbies
Conexão Social
- Manter relacionamentos próximos
- Participação em atividades comunitárias
- Voluntariado
- Grupos de interesse comum
O Impacto no Cuidador

Como médico, não posso ignorar o impacto que o Alzheimer tem sobre os cuidadores. Vejo diariamente o desgaste físico e emocional de quem cuida de pessoas com essa doença. Por isso, sempre oriento sobre:
- Educação sobre a doença: entender o que esperar
- Grupos de apoio: compartilhar experiências
- Cuidados pessoais: não negligenciar a própria saúde
- Revezamento: dividir responsabilidades quando possível
- Serviços de respiro: buscar ajuda temporária
- Assistência profissional: cuidadores formais quando necessário
Mitos e Verdades Sobre o Alzheimer
Durante meus anos de prática clínica, tenho me deparado com muitas concepções errôneas sobre a doença:
| Mito | Verdade |
|---|---|
| “Alzheimer é parte normal do envelhecimento” | É uma doença específica, não um resultado inevitável da idade |
| “Se um parente teve, eu certamente terei” | Histórico familiar aumenta o risco, mas não determina o destino |
| “Suplementos de alumínio causam Alzheimer” | Não há evidências científicas sólidas para esta afirmação |
| “Aspartame causa Alzheimer” | Estudos não comprovam esta relação |
| “Há cura, mas a indústria farmacêutica esconde” | Não existe cura conhecida; a pesquisa é intensa e transparente |
| “Apenas idosos desenvolvem Alzheimer” | Embora raro, existe o Alzheimer de início precoce (antes dos 65 anos) |
Quando Procurar Ajuda Médica
Sempre oriento meus pacientes e seus familiares a procurar avaliação médica quando notarem:
- Esquecimentos que atrapalham a rotina diária
- Dificuldade para executar tarefas familiares
- Problemas de linguagem
- Desorientação de tempo e espaço
- Julgamento empobrecido
- Problemas com pensamento abstrato
- Objetos guardados em lugares inapropriados
- Mudanças de humor ou comportamento
- Alterações de personalidade
- Perda de iniciativa
Conclusão
Em minha jornada como neurologista, tenho aprendido que, embora o Alzheimer seja uma doença desafiadora, existe muito que podemos fazer para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e de seus cuidadores. A combinação de diagnóstico precoce, tratamento adequado, suporte familiar e mudanças no estilo de vida pode fazer uma diferença significativa.
Vejo com otimismo os avanços científicos na área e acredito que estamos caminhando para tratamentos cada vez mais eficazes. Enquanto a cura ainda não chegou, nosso foco deve ser em prevenção, detecção precoce e manejo adequado dos sintomas.
Se você ou alguém que você ama está enfrentando esse diagnóstico, lembre-se: não está sozinho nesta jornada. Há profissionais capacitados, grupos de apoio e recursos disponíveis para ajudar em cada etapa do caminho.
FAQ sobre a Doença de Alzheimer
- O que é uma doença de Alzheimer?
A Doença de Alzheimer é um transtorno neurodegenerativo progressivo que compromete memória, pensamento e comportamento, sendo a causa mais comum de demência em idosos. - Quais são os primeiros sinais e sintomas?
Os sinais iniciais envolvem perda de memória recente que interfere nas atividades diárias, repetição de perguntas, dificuldade para comunicar conversas e executar tarefas complexas. - Alzheimer faz parte do envelhecimento normal?
Não; o envelhecimento traz esquecimentos leves, o Alzheimer provoca declínio cognitivo suficiente para afetar a vida diária e não é considerado um processo normal do envelhecimento. - Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico, feito por especialista com história, exame cognitivo e neurológico, apoiado por exames laboratoriais e de imagem para excluir outras causas; biomarcadores no licor podem auxiliar em casos selecionados. - Existe cura? Qual é o tratamento?
Não há cura, mas existem medicamentos e disciplinas não farmacológicas que podem aliviar sintomas e retardar a progressão, dentro de um cuidado multidisciplinar; no Brasil, o SUS oferece acompanhamento e medicamentos para manejo dos sintomas. - A doença é hereditária?
A causa é multifatorial; há influência genética e genes de risco como o APOE-e4, mas a maioria dos casos não é diretamente hereditária e tem histórico familiar não significa que uma pessoa tenha a doença. - Quais são os avanços e a evolução típica?
A evolução é lenta e progressiva, com estágios que vão de comprometimento nível até fases graves com dependência para atividades básicas; a sobrevida média após o diagnóstico costuma variar em torno de 8 a 10 anos
Este artigo tem propósito informativo e não substitui a consulta médica. Sempre procure um profissional de saúde qualificado para diagnóstico e tratamento.
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[…] da saúde cerebral a longo prazo, ajudando a prevenir doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e a demência, ou pelo menos atrasando seu início e progressão. É um investimento a longo prazo […]
[…] Doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência, afetando 60-80% das pessoas. Ela causa perda de memória e […]